Economia de energia



Entrevista publicada no dia: 12/03/2015

As perspectivas para 2015 em relação às tarifas de energia não são as mais animadoras. Em fevereiro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou a Cemig a fazer reajuste extraordinário. Para o consumidor residencial, a alta será de 21,39%. Mas o impacto vai ser ainda maior em razão do sistema de bandeira tarifária. Além disso, novo reajuste deve ocorrer em abril em razão da revisão ordinária anual. Por isso, o melhor caminho para evitar o impacto no bolso é começar a economizar energia desde já. Pensando assim, a revista “O Síndico” entrevista nesta edição Carlos Ressurreição, engenheiro civil formado pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa, que também é consultor e projetista na área de Energia. Com atuação destacada em eficiência energética de edifícios, ele dá dicas importantes que vão ajudar adiminuir o consumo de energia nos condomínios.

O Síndico: A previsão é mesmo de alta de energia para 2015?

Carlos Ressurreição: Atuo no Brasil há 15 anos, mas estou definitivamente no país há cinco. Quando cheguei, o Brasil já era um dos países com a energia elétrica mais cara do mundo. Fui surpreendido com as taxas, isso sem falar dos impostos, que quase duplicam o valor. O governo tentou não deixar a energia ficar ainda mais cara, não conseguiu e agora, com a utilização de produções não hídricas, infelizmente a energia vai aumentar. Não sei se atingirá os 40%, mas vai aumentar substancialmente ao longo do ano. 

 

Quais são os principais “vilões” quando o assunto é o consumo de energia nos condomínios? Onde se gasta mais energia dentro dos condomínios?

O maior vilão no Brasil é o chuveiro elétrico. Dentre os vários tipos de energia que se pode usar em casa, a elétrica é a mais cara. O Brasil não se preocupou, durante anos, com o custo da energia elétrica e todos utilizavam os chuveiros elétricos. Felizmente hoje, algumas obras novas já vêm com instalação de tubulação de gás para aquecimento da água do chuveiro.

Tendo em vista esse reajuste, o que pode ser feito para reduzir os gastos dentro dos condomínios?

O que tem que ser feito é reduzir o consumo. Para isso, buscar eficiência na iluminação e nas máquinas, como por exemplo, nos aparelhos de ar condicionado. Substituir, se possível, os chuveiros elétricos por chuveiros a gás. Só essa mudança permite reduzir 30% do consumo. Os edifícios novos têm, normalmente, uma instalação de gás que é distribuída para todo o condomínio. Para minha surpresa, alguns edifícios que estão sendo construídos têm a instalação de gás, mas apenas para o fogão. Isso é um grande desperdício, já que o gás pode perfeitamente ser utilizado para aquecer o chuveiro e não há dúvida de que é muito mais barato.

 

Em relação à iluminação, costuma encontrar muitos erros nos condomínios no que diz respeito à eficiência?

Ainda continuo a encontrar vários condomínios com lâmpadas incandescentes. É um contrassenso. Vejo lâmpadas de 60 Watts e 100 Watts em corredores enquanto as lâmpadas led de oito Watts produzem iluminação suficiente. A substituição gera uma economia que pode chegar a 90%. Também é possível fazer a substituição por lâmpadas fluorescentes de 20 Watts. Essa troca é muito significativa para o condomínio, principalmente se for acompanhada de um temporizador.

 

Você falou dos temporizadores. Quais são as dicas para economizar na hora de ligar o interruptor?

A melhor solução é instalar a fotocélula, que além de detectar a presença humana, detecta também a luz diurna. Com isso, só acende à noite, o que aumenta ainda mais a economia. Como esses sensores têm temporizador, diminuem ao máximo o tempo em que a lâmpada fica ligada. Essa é a melhor opção.

Em relação às lâmpadas, o mercado oferece um número significativo de opções...

Tem as fluorescentes, que eu já falei, e uma classe delas que está entrando agora no Brasil, que são as fluorescentes verdes. É um tipo de lâmpada que reduz em 40% o consumo de energia. Tem também as leds, que são as mais econômicas.

 

Prédios com elevadores consomem muita energia. Quais as dicas para reduzir os custos neste caso?

Em relação ao elevador, é preciso verificar se o motor é moderno e está inserido na Classe A, que garante o mínimo de consumo. Há edifícios que usam o mesmo elevador há 30 anos. É preciso fazer a substituição. Além disso, é preciso criar a consciência cívica de utilização da escada, deixando para usar o elevador só mesmo em último caso. Além de o exercício físico fazer bem, resulta em uma economia de energia muito grande. Também é importante não deixar as crianças brincarem.

 

Fontes alternativas de energia, como aquecedores solares, são viáveis?

Vi uma fotografia de uma cidade chinesa onde a cobertura de todos os edifícios era de coletores solares. Junto com esses coletores ficam depósitos de água para aquecimento. No Brasil não há muito esse costume. O país está começando a instalar energia solar agora, principalmente quem tem casa, mas também é perfeitamente possível a utilização coletiva. É feito um estudo em razão do número de apartamentos para calcular a quantidade de aquecedores necessários. Essa energia tem grandes vantagens: após o investimento ser pago, ela passa a ter custo zero, deixando de utilizar a eletricidade e até o gás. Tem um investimento, mas está provado que é pago entre três e cinco anos. O meio ambiente agradece e, a partir da instalação, a despesa com chuveiros elétricos desaparece. Também existem outros tipos de coletores solares, como os fotovoltaicos, voltados para produção de energia elétrica. Com coletores fotovoltaicos, conseguimos redução de até 50% no consumo de energia do condomínio. Conheço caso de edifícios em que a energia produzida pelos coletores fotovoltaicos só não substitui a energia usada nos elevadores. O restante, como as bombas d’água e a iluminação, o condomínio passou a pagar zero.

 

Você já teve acesso a esses prédios “inteligentes” em termos energéticos?

Em São Paulo já há vários edifícios assim. Ainda estão sendo estudados projetos para usar, além dos coletores fotovoltaicos, equipamentos para gerar energia eólica no topo dos edifícios. São equipamentos de tamanho reduzido, próprios para edifícios, com pás com três metros de comprimento. Com essa geração de energia é possível substituir todo o consumo do condomínio, inclusive os elevadores. Esse edifício 100% eficiente, já que é produtor autônomo, necessita de um investimento muito elevado. Tem coletores térmicos, coletores fotovoltaicos e ainda a geração de energia eólica.

Como você avalia a situação energética brasileira?

Existe um Plano Energético Nacional, que está em vigor e deve ser aplicado até 2025, mas esse plano energético é curto. Na Europa, foi criada em cada país agências para energia. Cada estado resolveu financiar, e só assim tiveram resultado, as instalações que os condomínios, as fábricas e o comércio decidiram fazer. Na França, o governo coparticipava com 50%. Ou seja, o condomínio que apresentasse um projeto para a instalação de coletores solares, por exemplo, tinha metade do custo financiado. Isso motivou as pessoas a se movimentarem para buscar essa economia. Entendo que no Brasil falta esse passo, esse incentivo. Se em uma casa for instalado o coletor solar para água quente, o consumo cai em 30%. Esse coletor custa R$ 1500. Se o Estado participar com R$ 750, a pessoa vai instalar. Estou usando o modelo francês, mas podem ser vários outros tipos de incentivo. É preciso criar sistemas para que os condomínios possam avançar nesse tipo de investimento. Se o governo fizer isso, as coisas vão funcionar. Até lá vamos ter que conviver com os apagões. Pessoalmente não acredito que o Brasil consiga evitar o apagão, principalmente por ter demorado muito tempo para adotar medidas visando a redução individual de energia. Todas as residências brasileiras poderiam baixar o consumo, ao menos, em 30%, que é o percentual gasto com chuveiro elétrico.

 

E o que os condomínios devem fazer para enfrentar os apagões?

Se justificar, eu sugeriria aos condomínios que instalassem antecipadamente um gerador de energia. Não é um investimento elevado e que resolverá o problema dos elevadores e da energia necessária para a iluminação. Hoje em dia já tem empresas construindo prédios que vem com gerador de energia. Infelizmente vamos precisar.

 

Fonte: Revista O Síndico Ed. 07

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