Condomínios precisam reaver relação de vizinhança

26 nov | 6 minutos de leitura
Com mais de 30 anos de atuação no setor, Rachkorsky é requisitado para falar para os maiores veículos de comunicação do país
Marcio Rachkorsky

No mês em que é celebrado o Dia do Síndico, buscamos presentear a categoria por meio de uma entrevista com um dos profissionais mais reconhecidos dentro do mercado de condomínios: o advogado Marcio Rachkorsky. Com mais de 30 anos de atuação no setor e com ampla participação junto a veículos de comunicação, como TV Globo, Folha de São Paulo e Rádio CBN, ele concedeu uma enriquecedora entrevista, na qual aborda temas de relevância para quem atua diretamente com condomínios. E mesmo trabalhando muito, mostra que é um apaixonado pela vida ao sempre encontrar tempo para fazer o que gosta.

A convivência entre pessoas é questão complexa. Qual a orientação que você dá para condôminos e síndicos para uma relação harmoniosa?

Essa primeira pergunta que você faz é a pergunta de um milhão de dólares. É conjunto, claro, de fatores, sobretudo porque o ambiente nos condomínios não é mais como antigamente. Eu trabalho nessa área há 33 anos. Antes, as assembleias costumavam ser ambientes de paz, de encontro entre vizinhos. As famílias se conheciam, os vizinhos sabiam das histórias uns dos outros, as pessoas conversavam mais, o condomínio era mais barato. Tudo favorecia uma convivência mais harmoniosa. Hoje em dia, as pessoas estão nervosas, o condomínio ficou caro, existe uma neura com segurança, os grupos de WhatsApp crescem a cada dia e ficam cada vez mais agressivos. Somado a isso, as pessoas estão cada vez mais individualistas, evitando o convívio pessoal. Naturalmente, isso reflete na harmonia entre os moradores, porque eles não se conhecem, não se admiram, não se respeitam, sequer falam bom dia. Obviamente a convivência fica prejudicada. Então, a grande dica – poderia dar umas cem – é que o síndico estimule a convivência harmoniosa divulgando, de tempos em tempos, as regras, marcando reuniões, criando atividades comuns entre os vizinhos, seja no Dia das Crianças, no Halloween, Festa de São João, de Natal, uma iniciativa beneficente, um churrasco, qualquer coisa que crie elos entre os vizinhos. Não existe uma grande regra, mas talvez esse seja o primeiro passo: juntar as pessoas, fazendo com que elas busquem novamente uma relação de vizinhança.

Você foi e continua sendo fonte de diversos veículos de comunicação. Como avalia o papel desses veículos para a difusão de conhecimento sobre os condomínios?

De fato eu atuo, de forma corriqueira, junto a órgãos de imprensa. TV Globo, Rádio CBN, Jornal Folha de São Paulo. Anos atrás, o papel da imprensa em relação à vida em condomínio era insignificante. Aliás, era um assunto que nem passava na TV. De uns anos para cá, o assunto ‘condomínio’ passou a ser interessante, os temas ficaram mais polêmicos, mais complexos. Os meios de comunicação começaram a enxergar que seria interessante falar sobre condomínio, pois dava Ibope, já que todo mundo gosta do assunto, pode ser rico, pobre, milionário, classe média: todos têm problema em condomínio, e os temas são comuns. E o papel da imprensa é no sentido de veicular as novidades, discutir os temas polêmicos e, acima de tudo, tentar conscientizar as pessoas sobre importância de uma relação amistosa, de comparecer às assembleias, de pagar em dia. Hoje, os canais de comunicação têm papel fundamental. Tanto que os jornais têm cadernos especiais sobre imóveis, artigos sobre condomínios, programas como o meu só para falar sobre condomínio. E o tema vai ficar cada vez mais pop, porque dá audiência. As pessoas estão migrando para os condomínios. Não tem jeito. É um caminho sem volta.

Quem você considera um bom síndico?

Eu gosto de síndico pacificador, mediador, que consegue resolver as coisas na conversa. Esse, para mim, é o bom síndico. É o que entra com pouca ação judicial, que notifica pouco, que multa pouco e que consegue ficar com o condomínio na sua mão, sob seu controle, na base da conversa, do bom senso, do diálogo, da cordialidade, da serenidade, da razoabilidade. E, acima de tudo, o bom síndico é aquele que sabe trabalhar em grupo. Trabalha em sintonia com o subsíndico, com o conselho, com a administradora, com o jurídico, com o engenheiro, com o auditor. Esse é o bom síndico. O cara que sabe trabalhar em grupo.

Síndico profissional ou síndico morador?

Não tem uma regra para definir por síndico profissional ou síndico morador. É o que for melhor para aquele ambiente. Já fui síndico profissional de condomínios que depositaram uma esperança enorme em mim e em um ano me mandaram embora dizendo que não estavam preparados para síndico profissional. Por outro lado, já tive condomínios em que cheguei e depois disseram que eu nunca mais sairia de lá. Cada condomínio tem a sua realidade, não existe uma receita de bolo. Em linhas gerais, condomínios pequenos, síndico morador. Condomínios médios e grandes, síndico profissional com grupos de trabalho compostos por moradores.

Responsabilidade civil do síndico? Assunto sério, não é mesmo?

Responsabilidade do síndico é assunto sério, mas não é só responsabilidade civil não. É civil, criminal, trabalhista, tributária, previdenciária e ambiental. São seis responsabilidades. É uma responsabilidade gigantesca. Se os síndicos soubessem do tamanho da encrenca, a maioria renunciaria hoje. Portanto, é muito importante ter um jurídico forte, ter uma boa apólice de seguro, cumprir a lei, fazer as coisas de forma correta, porque realmente a responsabilidade é brutal. Não se brinca com isso.

Como você avalia a necessidade de atualizar as convenções de condomínio?

Atualizar a convenção do condomínio é sempre um trabalho importante. O problema é o quorum, que é muito engessado, pois precisa de 2/3. É muito difícil conseguir. Atualmente, tenho recomendado para os síndicos deixarem a convenção de lado e mexerem no regulamento interno, porque é por maioria simples e você consegue dar mais dinamismo para as relações cotidianas. Oportunamente, quando tiver quorum – e aí pode ser através de uma assembleia aberta, em que você vai colhendo assinaturas – vai mexer na convenção. Mas o segredo é mexer mais no regulamento, porque é mais fácil e dá quase o mesmo efeito que mexer na convenção do condomínio. Mas é muito importante ter ambos os documentos atualizados.

Existe vida fora da profissão? Quem é Marcio Rachkorsky nas horas de lazer?

Tem muita vida – riso – fora da profissão. Sou pai, tenho uma menina de 19 anos, um menino de 15 e uma menina de três. Sou casado, sou corintiano, gosto muito de rock’n roll dos anos 80, um rock gótico que a gente chama de dark rock, gosto muito de beber vinho, whisky, de jantar fora. Mesmo trabalhando muito, 12 horas por dia, fazendo assembleia todo dia, cinco por semana, 20 por mês, mais de 200 por ano, ainda vou muito aos jogos, brinco com meus filhos, bebo bastante, como bem, vou para balada com a minha mulher e volto de manhã, tomo um banho e estou pronto para trabalhar. Jogo futebol, faço academia. Enfim, minha vida é bem legal.

Algo que queira acrescentar?

Para finalizar, vale frisar que trabalhar com condomínio é muito difícil, muito duro, requer muita experiência – e está cheio de aventureiro por aí – mas é uma área que não tem crise. Condomínio não fecha as portas, condomínio não tem falência, não muda de endereço. Ele está lá sempre e precisando de serviços. É uma área sempre em expansão. Os prédios vão ficando velhos e demandando mais serviços, e os prédios novos vão chegando. É uma área que só cresce e gera muitas oportunidades.

FONTE: Revista O Síndico – Edição 35


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