Os desafios, o dia a dia e o que move síndicos de JF

29 nov | 10 minutos de leitura
Para celebrar o Dia do Síndico, comemorado em 30 de novembro, ouvimos quatro representantes da classe

De acordo com documento da Associação Brasileira de Síndicos e Síndicos Profissionais (ABRASSP), disponível no site do Senado Federal, há, no Brasil, mais de 420 mil síndicos. São Paulo é o Estado que concentra o maior montante: 123.874. Na sequência, aparecem Rio de Janeiro, com 39.189 ; Minas Gerais, com 39.127; e Paraná, com 19.794.

No país, do total de 420 mil síndicos, 5,19% são profissionais, ou seja, são 21.868 pessoas que se qualificaram para exercer a função. Essa é uma das mudanças que vêm chegando com o passar do tempo, a profissionalização. O perfil do síndico está mudando, assim como as atividades inerentes ao cargo.

A figura do síndico profissional traz, por exemplo, uma mudança com relação à idade de quem desempenha a função. Dados do Censo SíndicoNet 2021, pesquisa que ouviu mais de cinco mil pessoas em todos os estados do Brasil e no Distrito Federal, mostram que o espaço ocupado por síndicos profissionais é preenchido por um público cada vez mais jovem. Isso ocorre em um ambiente onde 56,5% dos síndicos atuantes no país estão na faixa etária acima de 51 anos. O Censo SíndicoNet 2021 ouviu síndicos residentes, síndicos profissionais, administradoras de condomínios e demais representantes do segmento condominial.

“Muitas vezes, o que ocorre nos condomínios gera momentos de tensão, estresse e nervosismo”

Outro dado desta pesquisa que merece destaque diz respeito às mulheres, que ocupam cada vez mais espaço, somando, hoje, 39% ocupando cargos de síndico residentes em condomínios. O número revela um crescimento de 7% em comparação com o Censo SíndicoNet 2018. Contudo, entre os síndicos profissionais, o número de mulheres é menor, representando 32% do total. No dia 30 de novembro é celebrado o Dia do Síndico e, como forma de homenagear a classe, a revista O Síndico conversou com quatro síndicos de Juiz de Fora, orgânicos e profissionais, para levantar temas como desafios comuns à função, formas de lidar com os problemas do dia a dia e a paixão pelo universo condominial.

“JOGO DE CINTURA”

Somando quase três décadas como síndico profissional, Rony Casali lembra que, quando começou, há 28 anos, ouviu de uma condômina, durante uma reunião: “Se nem Cristo, que morreu na cruz de braços abertos, agradou a todos, você tem essa pretensão? Nunca mais esqueci disso.” Por isso, para ele, o síndico precisa ter jogo de cintura e até agir como psicólogo. “Isso é fundamental porque a gestão de pessoas é algo complicado. Não há nada melhor do que um síndico que saiba agir como mediador, ouvinte e psicólogo. Digo que essa tríade é fundamental nas relações interpessoais.”

Por outro lado, ele lembra que o síndico “é o comandante do navio. A ele cabem todas as decisões que devem ser tomadas na administração do condomínio. Uma boa administração depende muito da relação entre síndico e condôminos. A base de tudo está numa boa relação entre as duas partes, a fim de podermos traçar um bom plano estratégico”.

O também síndico Renan Terra, residente no Condomínio do Edifício Estrela da Manhã, empreendimento com 280 unidades localizado no bairro Francisco Bernardino, desempenha ali a função desde 2019, e destaca a importância de buscar manter o equilíbrio e o autocontrole. “Infelizmente não conseguimos agradar a todos, mesmo tentando fazer de tudo para melhorar a vida dos nossos amigos e vizinhos. Manter o equilíbrio e autocontrole se torna uma tarefa difícil, mas é importante não se deixar ser atingido pelos problemas e insatisfações que sempre vamos encontrar naqueles que nunca vão se contentar com qualquer esforço nosso. Por isso, é preciso manter o foco e ter paciência.”

CONHECIMENTO E OUTRAS FERRAMENTAS

Questionado sobre o que é mais importante no exercício da função de síndico, Renan é taxativo: “conhecimento. Uma boa gestão condominial exige conhecimento para lidar com as diversas situações existentes naquela micro sociedade. São vários tipos de problemas que estão sujeitos a acontecer, então, nada mais inteligente do que expandir seus conhecimentos para o exercício da atividade.”

“As soluções devem estar sustentadas por calma, serenidade, tranquilidade, e conhecimento”

A síndica e moradora do Condomínio do Edifício Chateau August Rodin, Sônia Regina H. Paranhos, que assumiu a função há um ano e meio, após o síndico eleito pedir demissão três meses após a posse, completa: “Além de ter que ser um bom administrador, o síndico precisa ser uma pessoa organizada e também ser sensível aos problemas, porque é preciso conciliar as demandas dos moradores e colaboradores. Aprendi isso em pouco tempo, afinal, assumi a função no escuro. Levei mais ou menos um mês para me inteirar a respeito dos contratos dos vários prestadores de serviços, por exemplo.”

Para Renan, “outra importante ferramenta é o poder do diálogo. Por meio dele, você vai influenciar e conquistar pessoas, vai facilitar suas atividades e convivência com os demais, vai melhorar seu dia a dia de trabalho com os colaboradores e, assim, conseguir alcançar tudo o que um síndico busca: tranquilidade”.

Rony lembra que a gestão patrimonial requer tempo e dedicação, bons prestadores de serviços e profissionais parceiros para atendimento às demandas diárias de um condomínio e uma planilha das obras necessárias, tanto de benfeitorias como as de caráter não emergencial. “Além disso, é necessário um bom planejamento do fluxo de caixa.”

SÍNDICO MORADOR

Para Renan, o fato de ser morador do edifício onde exerce a função de síndico contribuiu bastante, porque ele já sabia das insatisfações. “Assim, resolvi atuar em cima das queixas de forma rápida e direta. Foram várias mudanças, comunicados, notificações e multas, feitos de uma forma que os moradores ainda não tenham visto dentro do condomínio. Isso serviu para demostrar que, apesar de ser uma pessoa tranquila, eu não estava ali para brincar de ser síndico”, lembra ao falar sobre como conseguiu se impor como síndico. “Trouxe resultados rápidos.”

Ele relembra que, logo no início do mandato, começou a mitigar custos e eliminar despesas, reformulando e encerrando contratos. “Troquei algumas empresas e refiz orçamentos. Com isso, em menos de um ano como síndico, já tinha dobrado o valor em caixa e projetado um orçamento de mais de R$ 150 mil a mais do que quando havia iniciado. Foram vários investimentos e reformas sem necessidade de pagamento de taxa extra pelos moradores e sem aumentar o valor do condomínio.”

EVENTO SURPRESA

O síndico profissional Diego de Paula atua em diversos condomínios de grande porte, como o Le Quartier, no bairro Granbery, e o Independência 915, na região central, participando, inclusive, da implantação dos mesmos. Ele relata que entre os maiores problemas enfrentados estão aqueles direcionados ao evento surpresa e ao relacionamento com pessoas.

“O evento surpresa é aquele que costumo chamar de problemas operacionais ocorridos após o horário comercial, feriados e finais de semana, ocasiões em que o condomínio fica desguarnecido da equipe do dia a dia, quando os condôminos, principalmente de edifícios residenciais, estão usufruindo da infraestrutura condominial, e o síndico precisa ter rapidez e bons contatos profissionais para, ao menos, contornar a gravidade da situação inesperada, de modo a estagnar o problema e possibilitar tranquilidade para que o reparo seja concluído em dia útil e horário comercial.” Como exemplos de problemas que já precisou contornar, cita vazamentos na madrugada, desarme de conjuntos motobombas de recalque, enguiço de portões de garagem, retorno de esgoto, dentre outros.

Já quanto ao relacionamento, ele aponta a necessidade de agir com dinamismo, serenidade e jogo de cintura. “Muitas vezes, o que ocorre nos condomínios gera momentos de tensão, estresse e nervosismo, seja com relação à pressão exercida sobre um fornecedor para um atendimento rápido de emergência ou com relação a um morador, que, numa percepção equivocada, tende a priorizar um desejo pessoal em detrimento das regras de convivência coletiva. Seja evento surpresa ou problema de relacionamento, as soluções devem estar sustentadas por calma, serenidade, tranquilidade, e, sem sombra de dúvida, conhecimento sobre o que se está fazendo.”

RELAÇÃO COM FORNECEDORES

Para Diego, a relação com os fornecedores precisa ser de extrema confiança e respeito. “A demanda de condomínio consiste na prevenção e correção de problemas e solução de situações de urgência. Por conta disso, é importante uma boa relação com os fornecedores e prestadores de serviço, de modo que o síndico tenha atendimento prioritário, solução eficiente do problema e rápido retorno quanto ao que gerou a demanda. Somente com uma relação próxima e profissional com os fornecedores, seja de produtos ou prestação de serviço, é possível conseguir dar andamento na rotina do condomínio, sem comprometer a gestão e prejudicar os moradores.”

“A relação com os fornecedores precisa ser de extrema confiança e respeito”

Diego conta que busca manter um leque de fornecedores em agenda, priorizando aqueles que possuem comprometimento com o condomínio, mantendo preço justo e atendimento de qualidade.

ADMINISTRADORAS SÃO ELO

O síndico Rony aponta que a administradora serve de elo entre o síndico e os condôminos. “Além disso, tem um valor muito significativo no pagamento das contas, elaboração de balancetes, agendamento de reuniões e também ajuda o síndico nas tarefas do dia a dia.” A opinião é compartilhada pelo síndico Renan. “Uma boa administradora é a maior ferramenta que podemos ter. Por meio dela, podemos ter tudo que precisamos para tornar os dias mais fáceis aqui dentro.”

INTOLERÂNCIA E VIOLÊNCIA

Entre as dificuldades enfrentadas pelos síndicos, estão a intolerância e a violência. Para Diego, a explicação para esses problemas pode estar no fato de as pessoas pensarem visando interesses próprios, pessoais. “Quando o correto seria pensar de forma contrária, ou seja, coletivamente, afinal, em condomínios, convive-se ou trabalha-se em edifícios multifamiliares ou corporativos.”

Diego, que é advogado, completa que “a depender do perfil do condômino ou morador, a intolerância pode, sim, migrar para violência. Para combater esse indesejado contexto, é importante que os condomínios tenham uma boa convenção, um firme e atualizado regimento interno, que o síndico tenha conhecimento de ambos, das leis e não tenha receio de aplicar as sanções cabíveis. Só assim é possível preservar as regras de convívio coletivo e primar pela vivência harmoniosa dentro do condomínio”.

VALORIZAÇÃO DO PATRIMÔNIO

Diego conta que seu propósito é fazer os condomínios avançarem em modernização, valorização e desenvolvimento. “Costumo dizer que meu objetivo é valorizar o patrimônio dos condôminos, justificando um bom valor de aluguel aos investidores, e um bom lugar para se morar ou trabalhar àqueles que compõem a população do condomínio. Para tanto, por meio do meu trabalho, busco levar melhorias estruturais, inovações, manutenções regularmente em dia e um ótimo convívio interpessoal dentro das edificações ou associações. Cumprindo isso, o patrimônio individual valoriza e os possuidores, que são os reais usufrutuários da estrutura oferecida pelo condomínio e da nossa gestão, ganham em todos os aspectos, incluindo conforto, salubridade, harmonia, segurança e bem estar. Sinto-me motivado com esse objetivo estar sendo cumprido e ao enxergar um condômino satisfeito e escutar que estou sendo indicado para outros desafios.”

FONTE: Revista O Síndico – Edição 52


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