ESCRITO POR: Cleuzany Lott.
Advogada com especialização em Direito Condominial, MBA em Administração de Condomínios e Síndico Profissional, Presidente da Comissão de Direito Condominial da 43ª Subseção da OAB-MG, Governador Valadares e 3ª Vice-Presidente da Comissão de Direito Condominial de Minas Gerais, síndica, jornalista e palestrante.
No dia 8 de Março, enquanto o mundo celebra as conquistas femininas, nos corredores e nos grupos virtuais dos condomínios trava-se uma batalha silenciosa. Ser síndica hoje é, muitas vezes, exercer a autoridade sob o escrutínio de um machismo estrutural que se manifesta desde o “bom dia” ignorado pelo funcionário até a agressividade gratuita em assembleias.
O Tribunal Digital e o “Dono da Verdade”
A hostilidade ganhou um novo palco: o WhatsApp. É ali que o morador que se acha “alfa” despeja sua prepotência. Ele se coloca como o detentor de todo o conhecimento — da engenharia à contabilidade — para deslegitimar a gestão. No ambiente digital, a síndica é interrompida por textos em caixa alta e ironias que tentam pintá-la como incapaz. Para esse perfil de homem, qualquer explicação técnica da síndica é “conversa fiada”, enquanto a sua opinião infundada é tratada como lei.
A Síndica Profissional: “Boa de Teoria, Ruim de Prática”
O preconceito se acirra quando a gestão é técnica. Muitos homens não aceitam a autoridade da síndica profissional. O discurso é comum: “Ela só sabe a teoria, na prática não entende nada”. Dizem que ela fica “igual a uma barata tonta” ao acompanhar prestadores de serviço, subestimando a capacidade feminina de fiscalizar obras e manutenção. É o clássico mansplaining: o homem tenta explicar à profissional como ela deve fazer o trabalho pelo qual ela foi estudada e contratada para executar.
O Silêncio que Consente
O ponto mais sensível ocorre dentro das próprias unidades. Não é raro presenciarmos o “homem de família” que trata a esposa com rispidez e transfere esse comportamento para a gestão. O cenário mais desolador é o papel de algumas mulheres nesse cenário.
Muitas moradoras e conselheiras, acostumadas a um ambiente doméstico de submissão, acabam por validar a agressividade de seus maridos. Por medo, por costume ou por uma admiração distorcida da “coragem” masculina em “enfrentar” a síndica, elas se calam. Ao apoiar o marido que ataca a gestora, essas mulheres reforçam as correntes que as prendem em suas próprias casas, celebrando uma “valentia” que, no fundo, é apenas falta de educação e misoginia.
O que os números não escondem
Dados mostram que 84,5% dos brasileiros nutrem algum preconceito contra mulheres em liderança. No condomínio, isso vira assédio moral, usado para desestabilizar a gestora. Casos como o da síndica Heyde Bárbaro, agredida fisicamente em 2025, mostram que o desrespeito verbal é apenas o primeiro degrau de uma violência que o silêncio da comunidade ajuda a alimentar.
Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive decidindo o destino de grandes patrimônios. Que este Dia da Mulher sirva para lembrarmos que o respeito à síndica não é uma concessão, mas um dever. Apoiar uma mulher que lidera é romper o ciclo de submissão que tenta nos manter em silêncio.








